Felicidade Clandestina reúne 25 contos da escritora Clarice Lispector. Em uma mistura de estorias que transmite ao leitor uma visão do autor em cada conto, temos de alguma forma Lispector, seja em "Restos do Carnaval", ou no conto "O ovo e a Galinha" em alguns trechos conseguimos vislumbrar Clarice inserida sutilmente nas reflexões trazidas. Suas discussões sobre a existência, família, perda e amadurecimento.
Os contos de Felicidade Clandestina permitem ao leitor uma sucessão de reflexões, onde é preciso parar, respirar e absorver cada minuciosa palavra. As obras de Lispector não são fáceis ao leitor, mas são recheadas de uma narrativa de profunda e tocante surpresas. Mais lhe digo, é preciso que pare e refletia acerca de cada conto dentro desta obra.
"[...] O que me revela que talvez eu seja um agente é a ideia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho dele [...]" (O ovo e a Galinha, p.58)
O Conto que dá nome ao título do livro é o primeiro ao qual somo apresentados "Felicidade Clandestina", nós apresenta uma menina apaixonada por literatura que no passar da leitura se vê em uma situação de humilhação, pois deseja tanto um livro, mas a detedora do mesmo a fazer ir e voltar todos os dias para assim, dispensa a pobre menina com desculpas, sendo que o seu único desejo e poder ler o bendito livro. O livro em questão era "As reinações de Narizinho", de Monteiro Lobato. No entanto, ela passa uma verdadeira tortura chinesa, como cita a autora. E, é neste momento que podemos extrair o lado reflexivo trazido pela autora, quando enfim a garotinha consegue adquirir o livro.
[...] A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! [...] As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante". (Felicidade Clandestina, p. 12).
E assim, Clarice Lispector inicia uma obra que reflete sobre diversos aspectos da vida, da noção de clandestino, o de não pertencimento, retratando em alguns momentos uma felicidade que não acontece, ou que não é merecida, sendo ela passageira demais. Tais caraterísticas podemos notar em "A Hora da Estrela", este sentir que temos algo, porém sem nunca possuirmos verdadeiramente. O livro é curtinho, mas ainda assim, recheado de profundidade. Este, se me pedissem uma indicação, seria a minha proposta de leitura para quem deseja iniciar a leitura das obras de Clarice Lispector.


0 Comentários
